Gorda pelada: militância ou egotrip?

Oi, gente linda! Toda vez que entro no meu Instagram sou bombardeada por bundas nuas. Nada contra, amo a liberdade, conquistada a muita luta, que temos  em poder exibir nossos corpos gordos como quisermos e acho que o corpo nu é político, sim, portanto militância. Corpo gordo e livre é a coisa mais linda de se ver. 

Quando colocamos um corpo fora do padrão em um lugar comum, transformando a imagem de um corpo gordo como normal, como qualquer outro como tantos magros por aí, isso é de certa forma avançar na despatologização de um corpo gordo. O que é necessário e extremamente importante para que uma pessoa gorda consiga conviver harmoniosamente em sociedade, enfrentando menos preconceito. 

Mas, então, por que esse bombardeio de bundas no meu feed me incomodou tanto? 

É fato que bunda dá like. É só comparar a quantidade de curtidas em relação a outra foto da mesma criadora vestida. Então comecei a me questionar: será que em algum momento essa bunda política não acabou virando uma bunda caçadora de likes? Será que em certo momento, a criadora de conteúdo esqueceu-se do conteúdo em si e passou a postar apenas “o que funciona pra dar engajamento” (acredite, já ouvi isso várias vezes de colegas de profissão). 

Até onde um corpo pelado, querendo likes, é de  fato empoderador? Até onde ele pode ser opressor? 

Um corpo gordo nu não me incomoda. ter corpo gordo nu, sim. 

E veja, NÃO estou falando de criadoras de conteúdo que postam uma vez ou outra um fotão foda de nu militante acompanhado de um texto incrível e cheio de debates. Essas eu acho que são EXTREMAMENTE necessárias (inclusive tem aqui nesse post da Bia Gremion um exemplo fantástico de nu com conteúdo).

Visualizar esta foto no Instagram.

É muito doido ver que quando você some as pessoas que estão aqui vão te perguntar se você está bem ou cobrar interação, acho isso tão incrível, pensar que alguém que nem me conhece tem carinho e interesse pelo que eu falo, e sou muito grata por tudo que isso aqui me proporciona. Sou uma mina sem grana de 22 anos, sou sozinha e vivo disso aqui, do meus corres como modelo, única e exclusivamente só daqui. Além de estruturalmente por causa da gordofobia me sinto sem autoestima intelectual nenhuma e sem motivação de continuar, por que mesmo me esforçando não vejo resultados, não vejo resultados porque não sou uma gorda menor, não vejo resultados porque não sou a gorda engraçada e meiga que todo mundo segue pq é fácil não ter que lidar com a parte ruim dessa merda toda, com a problemática real, com uma estética real. E eu me sinto lutando dentro do meu próprio nicho, sempre sozinha já que as pessoas privilegiadas dentro da bolha não se importam em falar, em problematizar, em debater. E o privilégio ainda detém o poder da fala, que é o mais importante pra mim nisso tudo, ver como o discurso só é validado saindo da boca de uma pessoa mais perto do padrão. Eu sei que as coisas vão ser muito mais difíceis pra mim, além da minha estética eu trago militância. Pra você reconhecer seu privilégio é preciso deixar o seu ego. Vamo lembrar do famoso lugar de fala que a gente sempre falou, vamos lembrar que poder falar e ser ouvido, levado a sério é privilégio. Vamos lembrar que ser pacífico é privilégio também. Eu quero ver gordos maiores tendo voz e ganhando reconhecimento, dinheiro e convites pros espaços assim como vocês nesse movimento porque nós somos o front, e eu to falando disso a anos e não vejo nada mudar, sigo vendo esses corpos marginalizados e excluídos dos roles. E é isso, paciência e passividade pra quem pode ter, pra quem não tem raiva e pressa de ver as coisas acontecendo e mudando. foto incrível do @bobwolfenson

Uma publicação compartilhada por Bia Gremion (@biagremion) em

 

Estou falando daquelas que o feed é 90% foto pelada com legendas rasas e sem serviço algum. Você nem sabe do que a menina fala ao olhar o feed, porque só tem bunda e peito. Acho confuso… E talvez até um pouco prejudicial para quem vê, explico: 

A gorda não precisa ficar pelada pra ser validada como bonita, como empoderada, como mulher digna de ser desejada, elogiada e bem resolvida.

SPOILER necessário: você não precisa ficar pelada pra ser empoderada ok?! No entanto, se você quiser, é incrível que você tenha liberdade para isso. 

A ideia de que ser gorda e empoderada é sinônimo só de ficar postando fotos pelada talvez seja o que me incomoda – além claro de cairmos de novo na problemática da fetichização do corpo gordo

Não me incomoda por ver corpos nus (inclusive, adoro), mas porque eu nunca vi o empoderamento, a autoestima e autoconfiança como algo que precisasse ser validado por um grande público, por uma quantidade específica de likes ou por comentários biscoiteros.

O empoderamento, autoestima e autoconfiança vão muito além do corpo físico e externo. Têm inclusive muito mais a ver com sentimentos e certezas internas, que não precisam de validação online. Ser bem resolvida não significa que você precise ficar pelada na internet. 

O que me leva a pensar: será que as fotos peladas do Instagram querem de fato empoderar as seguidoras ou são só uma imensa egotrip, onde o que importa mesmo são os likes e os comentários validando seus corpos?

Será que ao falar de autoestima e aceitação usando apenas fotos nuas, elas não estão buscando fora, em comentários e curtidas, o que na verdade elas deveriam estar sentindo por dentro – e não estão? 

 

Eu não sei a resposta, até porque duvido que alguma seja capaz de dizer a verdade e admitir caso seja uma questão de ego. Mas ainda assim, involuntariamente, comecei a revirar os olhos cada vez que vejo uma bunda nua a cada 2 fotos do meu feed. Para mim, cada vez mais tem passado de empoderamento a ranço. Eu continuo aguardando algum conteúdo que de fato acrescente alguma coisa na minha vida, porque de bunda pelada, já vejo a minha no espelho todo dia e não preciso ficar mostrando nas redes sociais para saber que ela é bem maravilhosa. 

 

Além desses questionamentos, fico pensando: o que a bunda nua causa em uma seguidora que ainda não se aceita? Será que tantos corpos nus, o tempo inteiro, ajuda ela a se olhar com mais carinho no espelho ou só faz com que ela se sinta insuficiente e frustrada por não conseguir expor seu corpo com aquela “coragem”? Será que esse bombardeio liberta ou oprime ainda mais? 

O que você acha? As bundas do feed te empoderam ou te fazem se sentir insuficiente? 

 

Eu não consigo chegar a uma conclusão. Eu sou SEMPRE a favor da liberdade, a gente tem que postar o que quiser como quiser e segue quem quiser também. Mas achei o questionamento válido, pra gente pensar mesmo em como tem sido a produção de conteúdo no nosso meio, em como nós estamos interagindo nas redes e como essas imagens que chegam até nós realmente nos impactam.

 

O que vocês acham? Me contem tudo aqui!

 

HUA HUA

BJÓN

 

Ju Romano

Uma gordinha, de cílios longos e pernas curtas. Defensora da liberdade de ser quem e como a gente é, sempre com muito amor próprio.

2 Comments
  1. Eu acho que tudo é o equilíbrio. Acho que corpos gordos nus permitem que a gente identifique melhor e naturalize nossas estrias,dobras, cicatrizes, celulites, formato do corpo. Acho importante nos reconhecer assim, porém, não adianta ser só isso ou o tempo todo. Gosto de ver fotos assim mas também amo os videolooks da Mel, suas fotos de looks e fico mega inspirada. São formas de inspirações distintas mas ambas com sua importância.

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